O problema da parceria de Taylor Swift e Ticketmaster para a Reputation Tour

Em novembro de 2017, apenas três dias depois do lançamento do seu sexto álbum de estúdio intitulado Reputation, Taylor Swift anunciou uma turnê internacional para promover  a tão proclamada nova fase em sua carreira. Com o alto número de vendas do CD e o ótimo histórico de turnês bem sucedidas, não se esperava nada além de shows esgotados em minutos. Porém, não foi bem isso o que aconteceu.

Mesmo depois de quatro meses após o início das vendas, a maioria das datas ainda possui ingressos disponíveis. Veículos sensacionalistas aproveitaram para declarar a turnê um fiasco, apontando a baixa demanda como uma espécie de fracasso para a cantora. O que não é inteiramente verdade, já que a receita nos mostra que Taylor e seu time estão lucrando muito bem nessa história toda. A parte mais interessante se relaciona com o sistema de aquisição dos ingressos.

Para a Reputation Tour, Taylor e seu time se associaram com a Ticketmaster e criaram o Taylor Swift Tix, um programa que funciona basicamente assim: uma inscrição prévia através do site da empresa garante uma oportunidade de compra de ingresso para determinado local. O que difere essa nova experiência é que, como meio de subir de posição na fila para um ingresso, o fã é encorajado a cumprir uma série de passos que envolvem, principalmente,  adquirir o merchandising oficial da turnê. Ou seja, quanto mais dinheiro você gasta, maior sua chance de conseguir um entrada para o show desejado.

Então, é totalmente compreensível o fato de os swifties terem desenvolvido uma série de sentimentos negativos, incluindo raiva, desapontamento e choque. Isso tudo porque a imagem que eles têm de Taylor difere da artista tentando vender merchandising como meio de conseguir um ingresso. Produtoras a gravadoras estão envolvidas no meio disso tudo, mas se ela pode mudar a política do Spotify através de uma carta, Taylor pode muito bem se demonstrar avessa a esse sistema.

De certa maneira, é difícil acreditar que essa atitude veio da pessoa que agracia a lista de celebridades mais filantrópicas todos os anos, alguém que não mede e nunca mediu esforço para fazer com que cada fã se sentisse especial. A mesma pessoa que doou dinheiro para pagar a faculdade de um fã, que foi madrinha no casamento de outro, que inventou as Secret Sessions, que convida os fãs para a casa dela para ouvir o CD antes de qualquer veículo de comunicação. A lista de boas ações de Taylor é bem encorpada, então por que ela não impediu esse materialismo quando se tratou da Reputation Tour?

O conceito de gastar dinheiro por oportunidades exclusivas com seu ídolo não é inédito no mundo da música. Por anos artistas e seus representantes têm cobrado por meet & greets, oferecendo cinco segundos do seu tempo para tirar uma foto com eles no backstage em troca de uma pequena fortuna. Isso sem mencionar as versões deluxes, pacotes VIP, merchandising exclusivo, etc. O novo empreendimento de Taylor e sua equipe de marketing incomoda mais porque deixa muito claro qual a intenção de tudo isso: ganhar dinheiro. E porque se uma artista como Taylor, que se importa com o fãs, está se rendendo a esse sistema ganancioso, não sobram muitas esperanças em relação aos outros artistas.

Teoricamente, os fãs sabem que os ídolos lucram a suas custas. Reconhecem que a intenção através de qualquer tipo de merchandising é explorar a oportunidade de receber uns dólares a mais. Acontece que, ao pagar por um álbum ou uma camiseta, eles estão recebendo algo material em troca. Estão pagando por um serviço, comprando a arte de alguém. Esse é o trabalho deles, afinal de contas. O que cria o desconforto ao pagar preços exorbitantes por um meet & greet, por exemplo, é o fato de literalmente estar pagando para estar na presença de alguém. Como se a única maneira de alguém ser digno de conhecer esse artista fosse através do dinheiro. E isso se aplica às condições do Taylor Swift Tix com precisão exata.

Conhecer seu ídolo em troca de dinheiro é superficial e não traduzir vagamente a relação íntima e sentimental que se forma entre as duas partes com o compartilhamento da música. Faz os fãs se sentir baratos, sem importância, como se dedicar uma fração do tempo deles fosse apenas parte do trabalho, uma obrigação. E pode até ser, mas ninguém quer se sentir assim. O laço criado entre ídolo e fã é comumente desmerecido: não é raro a importância de um fã na vida do artista ser desconsiderada, e o altruísmo de idolatrar e apoiar alguém é facilmente negligenciado. A troca de sentimentos deve ser mútua; o artista precisa venerar um fã tanto quanto o fã o venera. Então por que são as gravadoras e produtoras, que possuem interesse somente no lucro, que decidem se o fã é merecedor de ter determinadas experiências com seu ídolo?

Na era da empatia, Taylor Swift tomou a decisão errada ao permitir que fãs com maior poder aquisitivo fossem privilegiados. Essa segregação colide com todas as outras atitudes prévias da cantora e só evidencia o fato de que esse capitalismo exagerado no mundo da música já não tem mais espaço em um mundo onde ser cool é sinônimo de ser gentil. Passamos da fase na qual a indiferença reinava: o legal agora é se importar. Nenhum fã quer se sentir extorquido, pois a intenção da música sempre foi a de pertencer e se sentir compreendido. Banalizar esses sentimentos por algo tão supérfluo como dinheiro é mesquinho e desvaloriza todo o empenho e carinho que o fã direciona ao seu ídolo. É preciso levar artistas como Harry Styles, Katy Perry, Ed Sheeran, Louis Tomlinson e tantos outros na cena pop,  como exemplo e proporcionar experiências únicas aos seus fãs somente com a intenção de retribuir o carinho recebido.

O questionamento que fica é: se não podemos contar Taylor Swift para lutar contra esse sistema favorecedor, quem vai nos defender?

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