Como Nossos Pais e o mito da mulher perfeita

Cresci em uma família tradicional: com um pai presente, uma mãe trabalhadora e mais dois irmãos. Ao longo dos anos eu observava minha mãe sendo a “coluna” da casa, como meu pai mesmo dizia, essa “coluna” era o que mantinha a casa em ordem. Minha mãe trabalhava fora ocasionalmente para complementar a renda da família e as tarefas ficavam a seu cargo, ela lavava, passava, cozinhava e ainda tinha tempo de ouvir as reclamações das filhas sobre a escola, histórias sobre as “namoradinhas” do filho mais velho e sobre como o trabalho do marido era estressante. Meu pai a ajudava também, ele lavava a louça quando ela não estava, cozinhava (mal, por sinal), dava uma ajeitadinha na casa e isso sempre foi motivo de orgulho para nós: ter um pai que ajudava nas tarefas de casa.

Com a idade mais avançada e a descoberta do feminismo, minha irmã e eu notamos que, na verdade, meu pai não fazia mais que a obrigação, afinal, ele também morava na casa, também se alimentava, também gostava de um lar limpo e arrumado, porque quando minha mãe chegava do trabalho cansada e tinha que ir cozinhar a gente não sentia orgulho, pelo contrário, achava a coisa mais normal do mundo e quando meu pai assumia o papel de dona do lar a gente batia palmas? Porque na nossa cabeça tudo o que minha mãe fazia era obrigação, afinal, ela era mãe, ela já nasceu programada para atender as necessidades dos filhos e do marido, além disso, ela deveria ser inteligente, magra, bem sucedida, ou seja, a mulher perfeita.

Quando fui assistir ao filme Como nossos pais, logo nas primeiras cenas, a imagem do marido lavando louça apenas para impressionar a família da esposa me lembrou dos inúmeros elogios que eram lançados para meu pai. O filme fala sobre a imagem da mãe perfeita que a protagonista Rosa (Maria Ribeiro) tenta alcançar para se afastar ao máximo da imagem que ela tem da própria mãe, Clarisse (Clarisse Abujamra).

A trama tem início quando Rosa descobre que não é filha legítima de seu pai Homero (Jorge Mautner) e ela começa a reviver a infância e a idolatria que sentia, e ainda sente, por ele. A memória que tem de seu pai sempre brincalhão, que criava teatrinho de fantoches, que era um pouco atrapalhado com as finanças, contrasta com a imagem de uma mãe ranzinza, estraga prazeres que nunca deu a devida atenção à filha. Isso nos mostra que muitas vezes só enxergamos o que queremos ver e a nossa memória pode nos trair.

Rosa nessa ânsia de ser tudo o que sua mãe não foi se esforça para alcançar a perfeição cuidando da casa e das filhas enquanto seu marido viaja a trabalho. Em meio a tudo isso ela precisa tirar um tempo para pensar sobre sua carreira, seu casamento e se deseja seguir neste caminho pela busca da perfeição. O filme nos apresenta a jornada de autoconhecimento de Rosa como mulher.

Maria Ribeiro está incrível, ela consegue transparecer toda a confusão mental que a personagem vive. Nem parece que está atuando, Maria nos transmite verdade e fica fácil reconhecer nossas mães, tias, irmãs e cunhadas na personagem. Os melhores diálogos ficam a cargo de Rosa e Clarisse, é possível notar todo o ressentimento que ambas carregam e a difícil relação que possuem.

Um dos pontos negativos é o papel do marido Dado, interpretado por Paulo Vilhena, pois nos remete ao clichê de marido relapso, que deixa tudo nas mãos da esposa, faltou profundidade e melhor aproveitamento do personagem. Outro ponto é a contradição de Rosa quando se mostra tão aberta para temas como feminismo e tão preconceituosa para assuntos como homossexualidade.

A diretora Laís Bodanzky traz uma obra sensível e real que nos leva para conhecer as dores de uma família de classe média. Toda a jornada de Rosa para se reencontrar como mulher nos faz perceber que não existe mulher perfeita, o que existe são altos padrões impostos por uma sociedade machista. No final, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

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