Clube do livro #Julho: Precisamos falar sobre fanfiction

Clube do livro é uma seção nova aqui no 36 para discutir nossas aventuras literárias. Livres de qualquer preconceitos, falamos de tudo aquilo que fazem nossas mentes se transportarem para outro universo.

Quando essa coluna foi idealizada, a intenção era dividir as leituras realizadas no mês, fosse para inspirar ou somente compartilhar nossas aventuras literárias. Muito mais do que dar dicas de livros, esse espaço é para discutir de maneira livre e informal nossos gostos e desgostos, compartilhando a dificuldade que é manter a leitura em dia com tantas outras opções de entretenimento e as responsabilidades da vida adulta. Por isso, hoje vamos falar de algo um pouco mais amplo do que apenas um título.

Com uma rotina puxada de trabalho e uma vida social para manter, às vezes o prospecto de se comprometer com um livro pode assustar, desincentivando em começar uma nova leitura. Existem também aquelas situações em que nada parece nos agradar e nenhum história disponível desperta nosso interesse. Esse sentimento é conhecido como “reading slump”, uma crise literária que tem motivos diversos para acontecer, mas é prevista de acontecer pelo menos uma vez na vida de todo ser humano que ama ler. Com o tempo eu descobri que para esses casos, a opção mais agradável para minha sanidade mental é recorrer à fanfictions.

Para quem não faz ideia do que é isso, fanfiction é uma história criada a partir de um enredo/mundo/personagens já existentes, de maneira que adicione ou mude determinados elementos criando uma trama inteiramente nova. Essa foi a maneira descoberta pelos fãs de poder estender algumas histórias além dos livros (como as de Harry Potter, Crepúsculo, Star Wars, etc), ou até mesmo de criar um universo inteiro baseado em uma única pessoa (como as que giram em torno de um artista). São postadas na internet gradativamente, mais comumente de capítulo em capítulo, e chegam ao comprimento de um livro em algumas ocasiões.

Acontece que, como tudo que envolve adolescentes como foco principal, esse universo é muito desvalorizado e julgado com bastante preconceito. Como leitora ávida desse gênero literário, acredito que é importante discutir esse fenômeno para desmistificar e procurar entender o que se esconde por trás de todas essas histórias. Vamos entender um pouco mais desse universo?

1. As histórias

A maior polêmica que envolve fanfics é o fato de não ser uma história 100% original, de se apropriar de características já existentes. Pode ser a trama, aspectos físicos, personalidade, o universo no qual ela se passa… existe uma infinidade de facetas que podem ser utilizadas para qualificar um trabalho como fanfiction. O mais importante é que a história tem como sua essência algo que não foi criado pelo autor e muitas pessoas consideram isso como falta de originalidade ou até mesmo plágio.

No meu ver, ao criar um enredo totalmente diferente do original a partir de algumas similaridades, essas pessoas estão exercitando e expressando sua criatividade, pois dão aos seus objetos de adoração uma alternativa diferente à já existente. Os autores desconstroem e dão um rumo novo para aquele tema, criando algo inédito mesmo com elementos retirados de outros lugares. Não é cópia, é inspiração. E minha maior pergunta é: não é toda maneira de arte inspirada em algo? Diversos livros parecem semelhantes demais aos meus olhos, abordando temas de maneira exatamente igual e com características estranhamente similares, porém isso não desvaloriza ou diminui o valor dessas obras, e eu não vejo razão para isso acontecer com fanfictions.

2. Os criadores

Com uma base composta em sua maioria por jovens garotas, é óbvio que os autores de fanfiction seriam ridicularizados. São histórias criadas por pessoas comuns, sem nenhuma formação especial ou credibilidade no mundo da literatura, e isso por si só já causa uma revirada bem grande de olhos. O que é importante ressaltar é que essas pessoas estão postando seu trabalho gratuitamente na internet com fins de entreter os demais fãs, recebendo apenas feedback de seus leitores como recompensa. Como não amar?

3. A qualidade

Nem todas as histórias são espetaculares, mas o que nesse mundo é perfeito? Como tudo na vida, a qualidade de uma fanfic se encontra em um espectro muito amplo chamado “gosto pessoal”. Livros como “50 tons de cinza” (que originalmente era uma fanfic de “Crepúsculo”) trazem uma conotação negativa desnecessária para um mundo repleto de pessoas talentosas e com capacidade de criar tramas dignas de virar best seller também. Mas vale lembrar que “Carry On”, de Rainbow Rowell, começou como uma fanfiction de Harry Potter e está aí para provar que nem tudo é trevas quando se trata desse gênero. Me atrevo a dizer que existem histórias nesse universo literário que superam a qualidade de muitos livros encontrados por aí.

4. A relevância

Adultos possuem uma mania asquerosa de inferiorizar toda e qualquer coisa que origine de jovens, fazendo com que essas pessoas se sintam inadequadas e incapazes. O que esses céticos não consideram é que existe uma geração inteira de jovens escritoras nascendo desse fenômeno da internet. Ao postar fanfics em seus blogs, elas estão exercitando sua escrita e desbravando sua criatividade, testando seus limites dentro de um mundo que podem as levar por caminhos maravilhosos. Ao invés de nutrir essa inferiorização reservada exclusivamente para jovens, é importante que esses autores encontrem incentivo e apoio para continuar a explorar seus talentos. Amor acima de ódio sempre!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s