Cinema brasileiro: filmes para amá-lo e idolatrá-lo

Generalizando, o brasileiro médio tem certa aversão com o material audiovisual produzido no Brasil. Não sei o que gerou isso, se é algo enraizado em nossa cultura, se é a tão falada síndrome de vira-lata ou o fato de colocarem tudo em um mesmo balaio – se o que viraliza são “globo filmes” e eu não gosto de um ou mais deles, então todos os filmes brasileiros são desse jeito e eu os odeio.

Recentemente, a Netflix lançou o seu primeiro material 100% brasileiro, a série de ficção científica 3%, que fez um tremendo sucesso global – e eu gostei muito -, mas em questão de aprovação brasileira, pelo menos na minha bolha, foi meio meh. O que nos leva a pensar em várias coisas… Uma série de sci-fi, produzida aqui, com um plot bacana que reflete muito da nossa situação social. A série tem furos? Tem sim, mas ela é logo descreditada e colocada em uma pilha de coisas ruins. Mas, talvez, se fosse produzida por um país como Estados Unidos ou Inglaterra seria ovacionada… Enfim, não vim aqui falar de séries, nem promover um estudo antropológico. Já que dia 19 de junho é dia do cinema brasileiro, vamos celebrar o que há de bom na sétima arte brazuca. Vem comigo:

Amores Urbanos (2016, dir. Vera Egito)

Filme cool, em uma vibe meio Xavier DolanAmores Urbanos fala sobre a vida adulta, chegar aos 30 anos e não ter ideia do que está acontecendo. É sobre os dramas, as pressões, os amores e desamores e o quão importante a amizade pode ser quando todo o resto está caindo aos pedaços. O filme é estrelado por Maria Laura Nogueira, Renata Gaspar (ai, que saudade Descolados da MTV) e o cantor maravilhoso Thiago Pethit – em sua primeira atuação, que não deixou a desejar, diga-se de passagem. O filme foi feito entre amigos, os cenários e figurino são emprestados, e o sentimento que a gente tem é que aquilo tudo é muito real, tamanha a química dos três. A cantora Ana Cañas também dá as caras no filme, fazendo par romântico com Micaela (Renata Gaspar). Com tantos cantores atuando, a trilha sonora não poderia deixar a desejar, até reuni tudo em uma playlist pra poder ficar curtindo essa vibezinha, ouça aqui. Amores Urbanos é o primeiro longa da diretora e, embora não seja uma grande masterpiece do nosso tempo, não deixa a desejar em nenhum momento.

Beira-Mar (2015, dir. Filipe Matzembacher e Márcio Reolon)

Em Beira-Mar, somos passageiros da viagem de Martin (Maurício José Barcellos) e Tomaz (Mateus Almada) ao litoral gaúcho. Da relação conturbada com o pai, até o desconhecimento de sua família paterna, Tomaz tem que lidar com dramas familiares e tentar resolver assuntos “dos adultos”. Embora esta seja a motivação inicial, o filme é muito maior que isso. É sobre descobertas e libertação. Em uma trama construída com olhares, diálogos e silêncios, observamos discussões sobre sexualidade e pressões familiares, feitas de forma simples, sutil e descomplicada. Apesar disso, os personagens são complexos e cheios de bagagem. O elenco não é muito experiente na arte do cinema e isso torna fácil acreditar nas suas ações e receios, pois de certa forma é como se os atores também estivessem tendo suas próprias descobertas. Algo interessante é a trilha sonora, que é bem escolhida, mas que em muitos momentos se apropria de sons ambientes, como o barulho do mar, que toma conta das cenas. A fotografia é muito bonita e explora os ambientes, profundidades. Tenho que parar com as comparações à Xavier Dolan, eu sei, mas em muitos momentos, há algo em Beira-Mar que me faz lembrar de Tom à la Ferme – não sei explicar… Tem que assistir e vivenciar essa aventura.

O Diabo Mora Aqui (2015, dir. Rodrigo Gasparini e Dante Vescio)

Tem filme de terror bom sendo produzido por aqui? Tem sim, senhor! Rodrigo Gasparini é um dos grandes nomes brazucas do gênero e algo em seu estilo sempre me chamou a atenção. Por mais que eu não goste de terror, pois: medo, sua parceria com Dante Vescio em O Diabo Mora Aqui é tão boa, que entrou automaticamente para minha pequena estante de filmes de terror – ao lado de filmes como O IluminadoO Exorcista e o recente Corra!. O filme é daqueles que te prende na cadeira/no sofá e te deixa curioso pelo que vem em seguida. A trama pode até ter clichês do gênero, mas a maneira com que eles são desenvolvidos é totalmente diferente do que você pode esperar. A história é original e toda a forma como é feita a construção, seja pela fotografia, enquadramentos e escolha de iluminação é pensada pra te entregar o melhor longa possível – e o faz. Pra mim, é melhor que muito filme gringo que vem sendo feito por aí… Vale à pena ir atrás e assistir. O buzz que o filme teve e ainda tem é totalmente justificado. Noite do Bento, Barão do Mel, maldições que datam a época da escravidão, jovens que decidem visitar a casa “mal assombrada”, lendas urbanas, boas atuações, clima tenso e excitante: é isso que você vai encontrar em O Diabo Mora Aqui.

Se você gostar, já deixo a dica de procurar outros trabalhos da dupla. Nerd of the Dead foi o que me introduziu ao trabalho de Rodrigo – e é uma websérie boa demais, pena que é tão curtinha. Conta com a participação de Pedro Carvalho, que vive Apolo em O Diabo Mora Aqui. E também Mail Is For Mailbox e Blondie, dois curtas excelentes dessa dupla de diretores que estão só começando mas vão ecoar muito por aí.

Os Famosos e Os Duendes da Morte (2010, dir. Esmir Filho)

Detentor do título de meu filme brasileiro favorito há alguns bons anos, Os Famosos e os Duendes da Morte é inspirado no livro de Ismael Caneppele, que, inclusive, participa do filme. O longa se passa no inverno de Lajeado, cidade interiorana do Rio Grande do Sul, em meio à neblina e suas paisagens cinzas. Nosso protagonista, o menino sem nome (Henrique Larré) é um adolescente de seus 16 anos, fã de Bob Dylan e que vive mais no mundo online do que o “real”, onde assina suas postagens como Mr. Tambourine Man. A trama não é muito direta, se passa entre o presente e as memórias do protagonista, entre o desejo de ficar na sua cidade ou partir para um lugar distante. É também sobre o impacto que as pessoas deixam nos outros e os fantasmas que elas deixam para trás. Entre devaneios, uma bela fotografia e trilha sonora assinada por Nelo Johann, o filme fala sobre vida, morte e tudo que há no meio – suicídios, amor, adolescência e poesia -, nesse drama que marcas vidas inteiras.

Ponto Zero (2015, dir. João Pedro Goulart)

Eu nunca assisti a um filme como Ponto Zero. Ao acompanhar a vida de Ênio (Sandro Aliprandini), jovem de 15 anos, cheio de problemas em uma família destruída, ficamos presos juntos do nosso protagonista. Nesse drama angustiante, a estética constrói um universo confuso e improvável, onde vivemos a jornada do nosso herói e carregamos com ele o peso de sua vida e as consequências de seus atos. O ator não leu o roteiro nenhuma vez nem assistiu ao que estava sendo gravado e suas falas eram passadas logo antes das cenas pelo diretor. Assim, Sandro descobria o filme e o que viria a seguir junto de seu personagem, por isso é tão verossímil toda a inocência de Ênio e o momento em que ela é quebrada. Tanto pelos relatos do elenco, quanto pelo produto final, observamos o cuidado e o trabalho excelente feito pela direção. É impossível sair imune ao filme: você vai ficar nem que seja um pouco mexido com a trama. Por fim, se em Os Famosos e Os Duendes da Morte aprendemos que estar perto não é físico, em Ponto Zero isso se confirma mostrando o contrário: que mesmo a poucos metros as pessoas podem estar a milhares de quilômetros de distância.

É claro que há muito mais filmes brasileiros de alta qualidade. No entanto, Central do BrasilLisbela e o PrisioneiroO Auto da CompadecidaO Homem Que Copiava, entre outros, são filmes que vocês – muito provavelmente – já assistiram e são sempre exibidos em tv aberta. Então, quis pegar alguns títulos mais recentes e que são muito, muito bons e ainda não atingiram o mainstream, mas merecem toda a atenção do mundo. Fica aqui nossa dica e espero que gostem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s