Clube do livro #Maio: Outros jeitos de usar a boca

Clube do livro é uma seção nova aqui no 36 para discutir nossas aventuras literárias. Livres de qualquer preconceitos, falamos de tudo aquilo que fazem nossas mentes se transportarem para outro universo.

Ultimamente eu tenho me aventurado em novos estilos literários, e minha última descoberta é o quanto eu me identifico com determinados estilo de poesia. Comecei pelos autores mais óbvios, mais mainstream e, principalmente, por aqueles que aparecem com frequência no meu feed do Tumblr. Faz mais sentido para mim que eu já conheça o trabalho de um autor antes de mergulhar em um livro de 200 páginas, e procurar posts nas tags do site realmente me ajudam a afunilar minha lista de preferidos.


Foi assim que eu conheci a Rupi Kaur: lendo seus poemas em meio a fotos do Harry Styles e calendários do bullet journal. Ela é uma das autoras mais conhecidas em um estilo chamado instapoetry, algo que somente a geração millenium podia ter inventado. O nome já diz tudo, mas basicamente é direcionado a escritores que possuem uma grande notoriedade dentro do Instagram. Com apenas 24 anos, grande parte do sucesso de Kaur se dá pela representatividade e a facilidade com que a autora consegue traduzir sentimentos que muitos levam presos em si.

"a ideia de que somos

tão capazes de amar

mas escolhemos

ser tóxicos."

Assim que comecei a ler Outros jeitos de usar a boca (editora Planeta, 207 páginas), senti uma ambiguidade de vontades que só os livros mais geniais te dão. Ao mesmo tempo em que eu desejava devorar os poemas e descobrir o que me aguardava nas páginas seguintes, eu queria conservar esse sentimento pela maior quantidade de tempo que fosse possível. Como se o livro fosse a melhor sobremesa do mundo e eu estivesse tão feliz em sua companhia que o término da mesma se tornava algo insuportável. E por mais que eu estivesse ansiosa para lê-lo houvesse algum tempo, eu não esperava o que estava por vir. Nenhum poema da autora que eu li no Tumblr me preparou para a majestosidade desse livro.


A cada página, cada poema e ilustração me trazia um senso de pertencimento que poucas autoras conseguem atualmente. Era como se aquele livro tivesse escrito sobre mim, como se alguém tivesse coletado meus sentimentos mais íntimos e traduzido eles em poesia. Kaur traz em sua obra uma necessidade de reflexão necessária em um mundo tão automático e rouba o ar de nossos pulmões com sua habilidade de pontuar assuntos tão relevantes. Tratando de tópicos comuns como fins de relacionamento e a sensação única de se apaixonar, ela traz um subtom feminista muito bem vindo. Seu livro é um chamado para acordar e sentir toda essa vulnerabilidade que teimamos em esconder, protegendo nosso ego de uma fraqueza fabricada por uma geração que veste a fachada da indiferença com orgulho.


Depois de terminar fiquei com uma sensação de vazio, como se cada poema daquele livro me completasse através das palavras que nem no meu mais selvagem sonho eu me atreveria a escrever. Esse livro me traduz tão bem que eu, ironicamente, fiquei sem palavras.

"você já era um dragão bem antes

de ele chegar dizendo

que você podia voar

você vai continuar sendo um dragão

por muito tempo depois da partida dele."

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