Um post sério: 13 pontos sobre 13 Reasons Why

A febre do momento é a nova série da Netflix lançada dia 31 de março: 13 Reasons Why. Eu não fazia ideia sobre o que era e nem nunca tinha ouvido falar antes. Resolvi assistir pra descobrir e, como em todo mundo, me gerou uma série de reações e é sobre elas que eu quero conversar aqui.

Pra quem não sabe, sou Psicóloga, tenho consultório próprio e uma página no Facebook, Azura – Terapia & Coaching (momento merchan) e quero conversar aqui não só como profissional, mas como telespectadora e também como um ser humano que já passou por um episódio depressivo sério.

Antes de tudo eu quero frisar que além de eu não ser boa escritora (não sei usar palavras pomposas e não sei nem se consegui botar todas as vírgulas nos lugares), é importante que vocês saibam que de forma alguma me acho a detentora da verdade. Fui convidada pra refletir e aqui estou. Sintam-se bem vindos em discordar e acrescentar num debate que tem tudo pra ser muito rico.

1) Uma das questões mais discutidas é se a série pode ou não despertar gatilhos

Gente, quem tem uma boa saúde mental vai no máximo se sentir desconfortável, mas jamais vai “desenvolver depressão”, fiquem de boas. O problema está no outro público: depressivos, borderlines, bipolares, pessoas com transtorno de ansiedade (dica do dia: pesquisem sobre TEPT) entre outros. Não há uma regra. Tem gente que diz inclusive gostar de ver séries como essa, pois vão ao encontro do que eles sentem, mas tem gente que passa verdadeiramente mal. Pessoas com depressão vieram me contar que tiveram crise de pânico e que o sentimento de desesperança cresceu muito e é aí que habita o perigo.

2) Impossível demorar tanto tempo assim pra ouvir as fitas. Na boa, Clay.

3) Outra questão bastante abordada também é se a cena do suicídio de Hanna serve como um tutorial. Não.

Apesar de a cena ser extremamente forte, eu fiquei “feliz” por não terem romantizado esta parte. Foi dura como é na realidade e se é pra mostrar, que então se mostre desse jeito pesado mesmo. Na era tecnológica, quem tem ideação já pesquisou muito sobre e sabe N maneiras de dar um fim na vida e não vai ser 13ry que vai ensinar como fazer isso. Mas sim, pode servir como um gatilho.

4) Há romantização? Ao meu ver, sim.

As cenas pesadas foram pesadas do jeito que é na “vida real” e concordo que nesse caso específico não houve a tal da romantização. Mas por favor, um rapaz bonitinho, bobinho, que perdeu a mina lindinha que ele amava, tentando fazer justiça por ela, revivendo cenas dos dois e enxergando ela em todo o lugar (inclusive usaram tanto desse recurso que pareceu que o Clay tem esquizofrenia, mas não duvido) com uma tentativa de diálogos profundos que foram tão rasos quanto um pires…

5) Outro debate é sobre se a Hanna usou as fitas como forma de vingança.

O fato é que ela se sentiu mais aliviada em por tudo pra fora (o terapeuta que ela nunca teve), mas após o péssimo manejo do couselor (o terapeuta que ela poderia ter tido), a personagem seguiu em frente com o plano de fazer um por um dos “porquês” ouvir as fitas e isso desencadeou uma série de consequências como a exposição do Bryce (que merece e muito pagar pelos crimes cometidos), e outras negativas, vide final nada feliz do Alex. Não tem como esquecer o Tray que foi sendo cada vez mais afastado e bullynado (o que me fez questionar se algum personagem aprendeu alguma coisa no fim) e vai ser aquele cara que entra na escola metralhando todo mundo. Entendo que pessoas deprimidas buscam no externo culpa pelo que estão passando, eu fiz isso ano passado, mas gostando ou não, a sensação foi exatamente essa de “sair do túmulo e puxar o pé” de cada um que a fez sofrer.

6) E já que eu mencionei o counselor, vou listar aqui algumas das frases dele: “você pediu pra ele parar?”; “talvez você tenha consentido e depois mudou de ideia”; “você pode seguir em frente”; “se você não quer confrontá-lo…”.

Hanna falou que foi estuprada, não é preciso usar a palavra pra isso e meu deus, essa cena me dói tanto. O counselor (que eu nem sei o nome) começou bem nas intervenções e depois foi machismo abaixo. Ela pediu ajuda, ela falou em fazer a vida parar, ela falou de abuso sexual e por ela não querer CONFRONTAR o agressor e ter medo de envolver polícia e pais, ele diz que o melhor é esquecer. Eu posso escrever um texto só sobre isso, mas vou me ater aqui e falar que é justamente por isso que o psicólogo escolar é visto apenas como a “tia do SOE” que só tá lá pra dar bronca. E infelizmente isso não acontece só na ficção.

7) Tá. Importante. Eu to puta com o counselor, mas longe de mim culpabiliza-lo e é sobre isso que eu quero falar nesse parágrafo: a necessidade de culpar alguém.

A série nos prende justamente pra nos fazer descobrir os responsáveis pelo suicídio da Hanna e isso é bem contraditório. A culpa matou Hanna e agora a gente quer encontrar outros culpados? Mais uma vez, cito o final nada feliz do Alex. (Aqui Bryce obviamente não se encaixa porque se tem algum cuzão que merece ser responsabilizado e pagar pelos atos, é ele).

8) O parágrafo 6 levou ao 7 que levou a este que é justamente pra falar sobre a superficialidade da série.

No sentido de que ficaram mais preocupados em atribuir culpa a alguém do que em aprofundar toda a gama de tópicos que eles resolveram tocar. Alcoolismo, homossexualidade, assédio sexual… Depressão. Gente, focaram no suicídio, mostraram a cena e não se falou sobre depressão. Inclusive o adoecimento dela não foi bem construído na trama.

9) No Brasil, 5,8% da população sofre com depressão, que afeta um total de 11,5 milhões de brasileiros.

Segundo os dados da OMS, o Brasil é o país com maior prevalência de depressão da América Latina e o segundo com maior prevalência nas Américas, ficando atrás somente dos Estados Unidos, que têm 5,9% de depressivos. Precisamos muito falar sobre isso e quebrar os tabus que circundam esse assunto e trago como ponto bastante positivo da série a discussão e reflexão que ela tem gerado. Que se mantenha!

10) O Centro de Valorização da Vida (CVV) teve um aumento de 100% de ligações após o seriado ter ido ao ar e isso é muito importante!

Mas assim, a Netflix se aliou ao CVV e como qualquer campanha publicitária, é justamente isso que se espera né, que o consumo de algo aumente. No entanto, fico feliz pelas pessoas buscarem ajuda (quantas dessas ligações não foram oriundas de um gatilho ein? Fica o questionamento). Quem tem renda baixa e não possui condições de pagar um tratamento psicológico, indico que procure as clínicas-escolas que contam com valores acessíveis e de acordo com a renda. Dica pra quem tá procurando ajuda e não sabe muito bem como.

11) Meu papel nesse texto não é proibir que se assista à série e sim puxar a reflexão a respeito dela e das consequências que ela trouxe.

O que eu quero dizer é que gostando ou não, a série tá no ar e as pessoas vão assistir mesmo se os pais proibirem, então, muito melhor do que tentar censurar algo, é que se divulgue da forma correta e se debata cada vez mais sobre. Pais, psicólogos, educadores, vocês têm o dever de ver e não ignorar algo que pode ser extremamente rico. Pessoas sensíveis, que não se encontram psicologicamente saudáveis, entendam que a série é forte e que pode gerar mal estar e despertar gatilhos, mas mais uma vez, a escolha é de vocês e não minha.

12) Indagar se alguém está com ideação não vai fazer com que ela tenha ideação.

Perguntar pode salvar vidas e se alguém tiver dúvidas de como conversar com a pessoa, procurem um profissional que possa auxiliar. Nesse caso, me disponibilizo pra dar mais informações pra quem precisar.

13) Os atores que interpretam Justin e Alex namoram e são muito fofos. Pra terminar em clima de #pas, vai uma selfie dos dois:

minha 14ª fita, rs) ALEX É FÃ DE TAYLOR SWIFT:

This could be us but it's Taylor so I don't care

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