Ser mulher é…

O dia internacional da mulher surgiu com o intuito de (pasmem) celebrar a luta das mulheres para adquirir melhores condições de trabalho (também conhecidos como direitos iguais) no início do século XX. Isso quer dizer que em 1909, quando a data foi celebrada pela primeira vez, nós mulheres já nos encontrávamos nesse impasse árduo contra a sociedade machista. Há mais de 100 anos estamos em busca de uma única coisa: igualdade.

Não é preciso que eu venha aqui dizer para vocês o quão ridicularizada essa data se tornou, o quanto ela se distanciou do objetivo inicial. Ao invés de irmos para rua marchar, de realmente celebrarmos a força feminina diante da opressão recorrente, o Dia da Mulher se tornou apenas mais uma data para que sejamos estereotipadas, diminuídas e reprimidas. Trocamos o reconhecimento entre irmãs por um tapinha na cabeça, um”tome aqui essa rosa para redimir toda a opressão pela qual nos homens lhes fazemos passar”.

Hoje, com a luta feminista cada vez mais viva e abrangente, as mulheres da equipe do 36 (e algumas convidadas maravilhosas) resolveu quebrar esse ritual e trouxe a perspectiva individual de diferentes mulheres sobre o que realmente significa pertencer a esse sexo nos dias de hoje. Para nós, ser mulher é…

Agni Oliveira:

…é a primeira vez que escrevo sobre como é ser mulher, confesso que não é algo simples para descrever mas é uma sensação libertadora poder falar sobre esse assunto.Não tenho como falar sobre ser mulher sem lembrar que constantemente a sociedade impõe papéis e ditam regras nos corpos e na maneira comportamental da mulher. Afinal, o que é ser mulher? Simone de Bevouir, filosofa e escritora francesa questiona os problemas de gênero da forma mais coerente possível. Ela cita uma frase que mudou completamente minha vida: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Mulher é construção, ela se molda conforme as necessidades, forma alianças e cria sólidos alicerces. Ser mulher é ser forte, é ser independente, é poder entrar e sair de qualquer ambiente, é ouvir bastante e falar mais ainda em uma roda de amigas. É descrever situações de forma precisa, é compartilhar vivências e aprender diariamente. Por ser uma mulher transexual constantemente sou lembrada sobre o papel que me foi imposto na sociedade. Ambientes noturnos, normalmente vistas nas esquinas, em sites, em anúncios mas não na luz do dia. Basta fazer uma rápida busca no Google “travesti, transexual” que aparecerão diversos sites de acompanhantes ou matérias sobre crimes e assassinatos. O Brasil é o país que mais mata mulheres travestis e transexuais no mundo. Então, pra mim o simples fato de ser uma mulher gera questionamento. Ir até a padaria comprar pão, correr pela manhã em um parque, estagiar pela tarde e ir pra faculdade de noite é minha forma de lutar pelos nossos direitos. Resistir e ocupar. Por isso a primeira palavra que vem a minha cabeça quando penso em ser mulher, é força!

Carina Schröder:

é precisar falar mais alto do que os homens da sala para ser ouvida sem ser interrompida. É dar ideias que não são ouvidas, ou dispensadas apenas para serem reinterpretadas ou levadas a sério quando ditas por homens. É constantemente ter que insistir que o seu ponto de vista é, sim, válido e vale a pena ser considerado. É ter que provar o tempo todo que você merece estar ali e que você importa.

Cindy da Rosa: 

…não ter direitos sob o meu corpo. Eu não posso escolher como eu vou usar ele ou como eu vou me apresentar para a sociedade. O mundo me diz que eu devo remover meus pelos, que eu tenho de usar maquiagem, como eu devo arrumar meu cabelo… que eu tenho que ser bonita e como eu devo ser bonita. E que isso é a coisa mais importante que eu vou fazer na minha vida. Todos os meus esforços devem ser direcionados a esse único propósito, e eu não tenho direito de não querer ser bonita. Eu tenho de ajustar todos os meus hábitos e minha rotina para alcançar um padrão que pessoas aleatórias escolheram como belo. Não importa minha profissão, minhas realizações, meus talentos, minhas virtudes: ser mulher significa que eu tenho de servir como um objeto para satisfazer os gostos de todas as outras pessoas além de mim.

Jennifer Baptista:

…é ter nascido no dia 8 de março, mas ter demorado 20 anos pra realmente entender a data. Ter precisado aprender a ser feminista, porque infelizmente a gente não nasce assim – muito pelo contrário. É lutar diariamente pra combater o próprio machismo, que é, sim, internalizado na sociedade. E depois de lutar contra o que foi “ensinado” desde que se é pequena, lutar contra um mundo que ainda não está pronto pra enxergar a mulher como ela é: um ser incrível e completamente capaz, alguém tão bom quanto qualquer homem. Ser mulher é ter medo de andar numa rua escura, não porque podemos ser assaltadas, mas porque podemos ser abusadas e mortas por simplesmente sermos mulheres. E esse medo não apenas por si, como também é por todas as mulheres. Mas ser mulher é também saber que não se está sozinha: estamos juntas! Aos 23 anos, completados hoje, no dia internacional da mulher, entendo que ser mulher é um símbolo de resistência e tenho orgulho de desembarcado no planeta Terra num dia importante como esse. Os tempos vindouros não serão fáceis, mas eu sei que não preciso mais lutar sozinha.

Natasha Heinz:

…nunca estar segura. A cidade em que eu moro é uma tranquilidade só: as pessoas deixam seus notebooks na mesa enquanto vão ao banheiro, andam com seus iPhones à mostra no ônibus e esquecem suas carteiras em seus carros abertos. Outro dia, um aluno foi assaltado enquanto saia da academia e imediatamente recebemos alertas, mensagens e e-mails com a descrição do suposto ladrão. Porém, todas as mulheres que conheço (e várias que já vi por aí) andam com spray de pimenta pendurado em seus chaveiros. É sempre assim: chave de casa, do carro, algum penduricalho bonito e o spray de pimenta. O fato de sentirmos essa necessidade significa que, no fim das contas, nunca estamos tranquilas em andar até as nossas salas de aula ou trabalho. Não é seguro para nós aproveitar um passeio pelo campus num dia de sol. A probabilidade mostra que ninguém vai nos roubar, mostrar uma faca, levar a carteira ou o celular. As atitudes mostram que isso não significa que estamos seguras.

Nathalia Domineli:

…ser vista com desconfiança quando for vítima de violência física ou verbal. É ter sua sanidade contestada e sua honestidade posta à prova! É ser desacreditada por outras pessoas, que simplesmente preferem confiar na inocência do acusado, porque este parece ser um bom homem. Consiste em ouvir, “o que você fez para que isso acontecesse?”. Muitas vezes acompanhado de um, “mas também você provocou”. É conviver com a lógica machista que insiste em culpar a vítima pelo ato criminoso de outra pessoa.

Patrícia Garcia:

…evoluir constantemente, surpreender e se amar. Cresci em uma geração de mulheres que vive o processo constante da desconstrução, e sei que ainda temos uma grande jornada pela frente, mas estamos nessa luta juntas. De mãos dadas vamos mostrando nossa força e cumplicidade pras novas gerações, a primeira geração que crescerá entendendo de verdade o que é ser mulher. É importante lembrar que o feminismo, independente do segmento não separa, ele une. O feminismo liberta, o feminismo salva. Mais do que nunca ser mulher é poder ser o que quiser, erguer a mão pra ajudar as manas, sem dedos pra apontar. A competição ficou na era do machismo. Vai ter Girl Power sim, vai ter GRL PWR pra caralho.

Renata Carolina:

…suspeitar de todo mundo o tempo todo. É suspeitar do trabalhador que divide o banco do ônibus. Do atrasado que caminha à frente. Do colega que sorri mais incisivamente. Do apressado que buzina no trânsito. Do amigo que encosta na pele com frequência. Do ansioso que faz movimentos bruscos. Do chefe que presta uma simples gentileza. Do educado que segura a porta do elevador. Parece inocente. Parece de bom coração. Parece natural. Até que não seja. Dia e noite. Todos os dias.

Roberta Reis:

…lutar diariamente. Contra o assédio, seja na rua, no trabalho, na noite ou até online. Contra os padrões, tanto os de beleza (ser magra, linda, sorridente, depilada, maquiada) quanto sociais (ter um homem, filhos, dar conta da casa, do trabalho e da família). Contra tentativas de nos inferiorizar, nos calar, achar que não somos tão capazes intelectualmente. Contra os rótulos de puta, santinha, vagabunda, frígida, “pra transar” ou “pra casar”. Contra o medo. E ainda assim, amar fazer parte dessa luta, se superar a cada dia, aprender com outras mulheres e apoiá-las sempre.

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