7 gibis para bem apreciar a nona arte

Ontem (30), celebramos aqui o dia nacional dos quadrinhos. Só que o dia nos deixou super empolgados e decidimos por seguir falando de gibis! Convocamos um time especialíssimo pra falar de seus gibis favoritos ou daqueles que marcaram a vida de alguma forma. Tem quadrinho pra tudo que é gosto, de tudo que é jeito… Ai, como é linda a nona arte ❤

Sandman (Neil Gaiman)

Indicado por Thael Peixoto

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Por muito tempo eu não me considerei um fã de quadrinhos, apesar de ter lido incontáveis gibis da Turma da Mônica e da Disney quando era criança. Porém, após ler Sandman, acabei mergulhando fundo nesse universo e de alguém que havia abandonado todos os quadrinhos na infância, passei a guardar e comprar quadrinhos como young adult. Gostaria muito de poder dizer que Sandman foi a primeira história do Gaiman que eu tive o prazer de ler, mas na verdade foi Good Omens, escrita em conjunto com o falecido Terry Pratchet e na iminência de se tornar uma minissérie. O tom das duas histórias não poderia ser mais diferente, mas a narrativa de ambas é impecável, envolvente e apaixonante. Publicada originalmente entre 1989 e 1996, só li Sandman em 2013. A história é contada do ponto de vista de Sonho, um dos sete Perpétuos, que são seres que personificam aspectos essenciais da existência e do universo. A história começa com um culto tentando capturar a Morte – outra dos Perpétuos-, com o fim de obter vida eterna e, no entanto, acabam capturando Sonho por engano, mantendo-o prisioneiro por 70 anos. A partir daí, o personagem escapa de sua prisão, se vinga de seus captores e parte em uma jornada para recuperar seu reino e seus artefatos de poder, na qual encontramos seres de outro planeta, criaturas infernais, pesadelos e personagens folclóricos das mais variadas culturas, demonstrando o vasto conhecimento que o Neil Gaiman tem de mitologia, do oculto e da arte de contas histórias.

Palestina (Joe Sacco)

Indicado por Mateus Poitevin Cardoso

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Um dos livros que tenho mais carinho na minha coleção é Palestina. Uma das obras primas, precursora de um estilo único – que mistura jornalismo com quadrinhos – do jornalista e cartunista Joe Sacco é um livro instigante e diferente de tudo o que você vai ler. Para começar a falar dessa obra é impossível não começar pelo estilo desenvolvido por Joe. Ainda nos anos 80, Joe Sacco, formado em jornalismo, decidiu rodar o mundo em busca de aventuras. Depois de visitar muitos lugares, entre eles Israel e o estado não totalmente reconhecido da Palestina, ele voltou para casa e começou a trabalhar na obra. Joe, que já havia publicado seu primeiro livro em quadrinhos, Yahoo, que abordava temas variados sobre sua história pessoal, resolveu aliar seu conhecimento jornalístico e trabalhar em uma obra totalmente não-ficcional, trazendo a visão de um correspondente de um local de conflito, só que em quadrinhos. Palestina traz um relato dos depoimentos de pessoas comuns de ambos os lados em meio à hostilidade do embate entre judeus e palestinos. Fatos que somente um trabalho de formiguinha, com muita paciência e compromisso, de uma pessoa infiltrada na população poderia colher. Detalhes tão singulares sobre o conflito que nenhuma mídia ocidental jamais noticiara. E o desenho de Sacco é tão incrível que o livro te leva realmente para uma versão de papel e nanquim de Israel e Gaza. Para quem curte uma leitura política e quadrinhos é um prato cheio. Pra quem não curte nada disso, mas ainda assim admira livros bem escritos, também vale a pena. E depois que se viciarem é só seguir com a obra dele, entre os destaques tem a segunda parte de Palestina, e outros livros sobre a Guerra dos Balcãs que foram lançados nos anos 2000. No Brasil todos foram publicados pela Conrad. Por Palestina Joe Sacco recebeu o prêmio American Book Awards. Ele também foi o primeiro cartunista a receber um Prêmio Pulitzer de jornalismo.

Berserk (Kentaro Miura)

Indicado por Felipe Ramos

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Se você tem estômago fraco, já adianto que talvez essa dica não seja pra você. Berserk é um mangá escrito e desenhado pelo mestre Kentaro Miura e conta a história de Guts, um ex-mercenário amaldiçoado pela Marca do Sacrifício buscando vingança. Esta marca faz com que ele sempre seja atraído por demônios e que estes sejam atraídos a ele, deixando apenas um rastro de sangue e horror por onde passa. Também é conhecido como “Espadachim Negro”, infame por sua espada Dragonslayer, que conforme descrita na história é “muito grande para ser chamada de espada. Muito grande, muito grossa, muito pesada, muito grosseira, parecendo mais um grande pedaço de metal”. O enredo gira em torno do anti-herói buscando vingança e sobrevivência enquanto lida com temas como isolamento, traição, ilusão do livre-arbítrio e a questão sobre a índole humana, explorando o pior lado de nossa natureza. O mangá é uma verdadeira obra de arte grotesca: painéis lindos, traços impecáveis, cheios de detalhes, sangue, tripas, nudez, monstros horrendos e muito, muito ódio estampado nas lutas de Guts – é quase como se você sentisse o ódio ardente e toda sua fúria nos traços. A trama é pesada em vários sentidos e pode ser difícil de ler, para algumas pessoas, por retratar cenas cruéis, como estupro. O mundo é legitimamente Dark Fantasy, onde tudo possui um tom mórbido e sombrio. Na minha experiência de vida, conheci poucos personagens fictícios – e até reais, eu diria – que se ferraram mais que Guts ao longo de sua existência. Sua desgraça o acompanhou desde o momento que saiu do ventre da mãe – e, a partir dali, as coisas só pioraram. Até quando ele finalmente encontra um raio mínimo de esperança e felicidade, tudo muda e um pesadelo ainda pior aparece. Histórias tristes me encantam e Berserk junta isso à violência crua, resultando em um dos mangás mais populares e conceituados da história. Toda sua controvérsia não é em vão e, se você se garante, recomendo que vá ler nesse exato momento.

Daytripper (Fábio Moon e Gabriel Bá)

Indicado por Rafael Sanches

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Quando eu era criança eu costumava pensar que cada decisão que eu tomava criaria uma realidade alternativa em que eu teria feito exatamente o contrário, gerando assim uma infinidade de universos. Daytripper nos leva para uma viagem de vida(s) e morte(s), explorando as implicâncias das pequenas e grandes decisões na vida do individuo, de uma forma muito mais sutil e ao mesmo tempo crua do que a minha mente infantil faria.  Em suas coloridíssimas páginas, os brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá nos levam a intimidade de Brás um escritor frustrado e suas diversas possibilidades de passados e futuros (sim no plural) que acabam servindo como gatilhos para as reflexões do próprio leitor em suas posibilidades.  Daytripper recebeu o Eisner de melhor série limitada em 2011 mas que mesmo assim não chega a ser uma obra mainstream (não que quadrinhos que não sejam de super heróis sejam algo mainstream), mas é uma obra essêncial para todos os amantes dos quadrinhos ou simplesmente da boa literatura.

Persepolis (Marjane Satrapi)

Indicado por Carina Schröder

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Você provavelmente já ouviu falar de Persepolis. Ou viu a animação. Ou leu a HQ, e se você já leu, vai concordar comigo que é uma obra incrível. A história é uma autobiografia da Marjane Satrapi, que escreveu e desenhou sobre sua infância até sua adolescência/início da vida adulta, antes e após a revolução islâmica. A história é linda, da “personagem” indo em busca de uma autoaceitação em um mundo que não parece a aceitar tão bem, além de viver clássicos dramas de alguém que está envelhecendo e se tornando, de fato, uma pessoa nesse mundo conturbado. Além do mais, considerando a situação atual do mundo, é sempre muito educativo entender e vislumbrar uma história do ponto de vista de uma mulher iraniana. De verdade, vale muito a pena investir nessa história. (Spoiler alert: lágrimas vão rolar).

Pétalas (Gustavo Borges e Cris Peter)

Indicado por Jennifer Baptista

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Falar de Pétalas é falar de uma das obras mais lindas que eu já tive contato na vida. De uma simplicidade que encanta, os traços de Gustavo Borges narram uma história muda sobre generosidade, bondade e altruísmo que aquece o coração. As cores de Cris Peter dão o tom do quadrinho, que é um presente pra todos nós. Gustavo teve o desafio (próprio) de, sem palavras, transmitir sua narrativa e acabar por nos conquistar. Por isso, cada expressão, cada movimento das carismáticas personagens é tão importante. O cuidado com que Pétalas é feita não deixa dúvidas do porquê esse gibi, mesmo curto, é tão ovacionado dentre os quadrinhos nacionais. Fun fact: Pétalas era pra ter sido feita em preto-e-branco. Porém, quando a Cris viu os esboços do que a obra seria, pediu para colorir e, por isso, seremos eternamente gratos. Juntos, Cris e Gustavo, criaram um Catarse pro quadrinho. De forma mais do que merecida, o projeto foi completamente financiado, atingindo a porcentagem recorde de 1068% da meta original. Faça a si mesmo um favor e leia Pétalas. De nada.

Os Invisíveis (Grant Morrison)

Indicado por André Araujo

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Há muitos anos, quando eu comecei a ler gibis, existia toda uma subcultura de SCANS na internet. As editoras de quadrinhos eram meio incompetentes, havia pouca curadoria e os leitores decidiram tomar o assunto nas próprias mãos e publicar por si mesmos as traduções daquilo que não tinha a menor possibilidade de sair no Brasil. Um dos gibis que exibia um caráter MÍ(S)TICO era a série OS INVISÍVEIS de Grant Morrison. Algumas edições haviam sido publicadas no Brasil, mas não havia a menor possibilidade de leitura que não através da boa e velha pirataria (dc++ ftw). Ano passado, a Panini decidiu corrigir esse erro histórico e publicou a série toda em oito encadernados. não impressiona que Os Invisíveis tenha tomado essa posição de SANTO GRAAL do quadrinhos alternativos: drogas, situacionismo, ficção científica, conspirações, física quântica, psicodelia, viagem no tempo, xamanismo, uma protagonista transsexual, hakim bey e sexo tântrico. Juro que essa não é uma descrição da psique de um adolescente, mas sim os temas trabalhados ao longo da série diretamente. Há uns anos, cheguei a pensar que talvez Os Invisíveis fosse uma história muito datada, cristalizando um zeitgeist muito específico dos últimos anos (90) em que parecia que o mundo ia dar certo e que todos íamos viver felizes numa zona autônoma temporária hiperdimensional. Mas reli a série e ela parece ainda melhor; talvez um pouco melancólica pela guinada conservadora e careta que o mundo deu pós 11/9 e que encontra sua manifestação suprema na eleição de Donald Trump. Mas ainda assim, ela se mantêm como uma espécie de reserva criativa para os momentos de desespero, saber que existiu e ainda existe alguma alquimia fundamental a ser explorada pelas adolescentes de cabelo colorido que escutam M.I.A. numa ocupação enquanto lêem, espero, os invisíveis. GLITTERDAMMERUNG.

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