36 discos de 2016 – parte 03

Dá pra acreditar que já chegamos na metade?

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Por Gabriel Nonino

Where Are We Know?“, pergunta Kinsella dezessete anos depois. Ainda bem que ele ainda não sabe responder. Eis que o American Football renasceu das cinzas de um subgênero contraditório e, pra ficar na língua materna do ritmo, misunderstood. Pais, não, avós do Emo, a banda de Urbana, Illinois, estreou em 1999 com uma combinação de Indie, Post-Rock e pinceladas de Jazz que dariam o tom do subgênero mais controverso dos últimos anos. Com apenas um álbum homônimo ao nome da banda, eles nunca tiveram a pretensão de se estabilizar no ~~cenário. E se em 1999 a capa era um jovem olhando pra janela de uma casa típica do subúrbio midwest-estadunidense (ironicamente, ou não, quem elegeu Trump), em 2016 nós estamos dentro da casa olhando para a porta aberta. Os emo véio se reuniram novamente para nos brindar com o segundo disco (também homônimo a banda) contendo inéditas que resgatam – e atualizam – o melhor do chororô emo. Do depressivo “Give Me The Gun” ao reflexivo “Home Is Where The Haunt Is” o álbum é melancólico, mas com um amadurecimento que nota-se inclusive na voz de Kinsella. Afinal de contas, os integrantes não estão mais na faculdade, mas sim com família e empregos regulares.  São justamente esses questionamentos idiossincráticos sobre amores perdidos, sem a pretensão de grandeza (são quatro caras brancos cantando sobre o próprio cotidiano, como afirma o guitarrista da banda Steve Holmes), que faz American Football se ajustar tão bem a atualidade. Seja em 1999, seja em 2016.

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Por Leonardo Baldessarelli

Não é por acaso que lá no finzinho de Atrocity Exhibition salta uma música (“Today”, mais exatamente) com o mesmo flow e até uma citação exata de quatro versos da clássica “B.O.B.”, do Outkast. Quarto full do rapper Danny Brown, o álbum segue o legado do hip hop experimental, agitado, quebradiço e abstrato que passa pelas obras de A Tribe Called Quest, EL-P, Madvillain e do próprio Outkast chegando até nomes atuais como Shabazz Palaces e Run the Jewels. É um som que caminha pelo pós-punk e pelo industrial, mas que não deixa de trazer hooks pEgAjOsOs, uma chuva de samples e ter um pensamento harmônico pesado, apesar de seu apelo parecer sutil nas primeiras ouvidas. O negócio é que Atrocity Exhibition gruda demais na cabeça, principalmente pra quem tá acostumado com um som rap mais extremo (leia-se Death Grips) e quem desconstruir o timbre do Danny, que realmente não é a coisa mais agradável que alguém já modulou. Quanto aos versos do cara, é tudo muito autobiográfico, mesmo quando dito em metáforas – a relação do rapper com as drogas predomina entre os temas, mas o cantor encara tudo de uma forma um tanto irônica – nem triste, nem otimista, até com certa arrogância. “Tell Me What I Don’t Now”, por exemplo, é uma celebração ao yams, à sabedoria da rua do próprio Danny; “Ain’t It Funny”, o petardo sônico (produção absurda, amiguinho) e lírico que pra muita gente é a melhor faixa do disco, mostra o cara explicando por que vida dele é uma merda – mas achando tudo isso engraçado e dizendo não conhecer outro caminho possível; a psicodélica (e linda) “Downward Spiral” é exatamente o que seu título dá a entender: uma reflexão sobre tudo o que vem empurrando Danny pra baixo – e, pô, o refrão com a guitarra gritando orna com a letra de um jeito lindo; e ainda tem a pesada “Really Doe”, única música com participações de outros rappers, mas que traz apenas Ab-Soul, Earl Sweatshirt e Kendrick Lamar. No fim das contas, “Atrocity Exhibition” é um disco pós-apocalíptico, que encara as trevas mais como algo sempre presente do que fazendo juízos de valor, e carrega o espírito do tempo sombrio de 2016 como poucos outros lançamentos no ano. É a própria “exposição de atrocidades” do título, uma referência à faixa do Joy Division e ao livro de J.G. Ballard; e é a cara da semi-destruída Detroit, cidade natal de Danny Brown.

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Por Matheus Nascimento

Bastille é uma das melhores bandas atuais, não necessariamente se encaixando em um gênero específico musical, mas definitivamente merece sua atenção (e consequentemente, seu amor). Depois de dois anos de espera, os lendários fãs de Twin Peaks voltaram com um álbum que não apenas continua seu predecessor, como evolui. Wild World é a trilha sonora de uma viagem sem rumo pelas ruas vazias de sua cidade às 3 da manhã – acompanhado dos fantasmas de um passado amor assombrando o futuro. Wild World é uma festa urbana, uma conexão entre todos os sonhadores espalhados pelo mundo. O arranjo dos instrumentos é refinadíssimo e o trabalho absoluto é um evento na vida de quem o ouvir – com destaque a sua versão deluxe, que inclui itens essenciais para fãs de boa música e é indispensável para o aproveitamento completo da obra (palavras do próprio Dan Smith hein).

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Por Carina Schröder e Natasha Heinz

Caros leitores, estamos aqui para falar de um álbum indicado ao Grammy. Isso mesmo: California, o mais recente álbum de uma banda conhecida por músicas como o excelente hino natalino “Happy Holidays, You Bastard”, está indicado ao prêmio de melhor álbum de rock. E a melhor parte? Faz todo o sentido.  California trouxe de volta para os fãs aquilo que era esperado desde o anúncio da volta em 2009. Neighborhoods pode ter decepcionado alguns (ou a maioria) daqueles que sentiam saudades do Blink moleque, Blink de raiz, mas California chegou para mostrar que ainda há esperança de sentir aquela euforia com os riffzinhos e letras chiclete da banda. E, vamos combinar, precisamos dar créditos a Matt Skiba. Lembram quando disseram que “não ia ser a mesma coisa”? Ou que ele não fazia sentido dentro da banda? Bom, haters gonna hate, mas Matt Skiba chegou trazendo para a banda algo que Tom Delonge já não tinha (além da capacidade de tocar guitarra): dedicação. Esse álbum só saiu porque ele entrou – e se encaixou perfeitamente na dinâmica da banda. California é o álbum mais divertido do Blink em muito tempo, mas isso não quer dizer que eles regrediram. O que parece é que eles finalmente aceitaram que existem certos aspectos que fazem Blink ser Blink, e que faz a gente amar cada música idiota de 15 segundos. California é o Blink pelo qual nos apaixonamos, mas é também o Blink que sempre esperamos ver: a banda que se dedica e parece finalmente se importar com a fama de influência no pop punk atual que nem sempre pareceu se importar em manter. Blink está maduro, mas nem tanto. E é assim que nós gostamos. California não é exatamente nostálgico, mas dá aquela vontadezinha de voltar a San Diego.

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Por Paulo Stölben

Confesso que não era fã de Panic! quando lançaram “I Write Sins Not Tragedies ou “Nine In The Afternoon” e até gostei de “New Perspective” e “The Ballad of Mona Lisa”, mas nunca me aprofundei muito. Eis que ano passado, procurando algo de novo para ouvir, me deparo com “Victorious”, o segundo single do próximo trabalho do Brendon! At the Disco, já que o único sobrevivente é o vocalista Brendon Urie, que traça os caminhos dos trabalhos da banda desde Too Weird to Live, Too Rare to Die! de 2013. Para a minha surpresa, a música me pegoutenteiescaparnãoconsegui, me fazendo procurar os antigos trabalhos da banda e no fim, me identificando mais com a “fase solo” de Brendon do que com o início da banda. Com o lançamento do clipe do terceiro single, “Emperor’s New Clothes” (que por sinal, poderia ser o nome do álbum e encaixa tão bem com a arte da capa, mas enfim…) veio o nome e conceito do novo trabalho: “Death of a Bachelor”, inspirado na vida de casado de Brendon com a atriz Sarah Orzechowski (agora Sarah Urie). Lançado no dia 19 de janeiro, “Death of a Bachelor” é pop, é jazz, é rock, é tecno, retrô e o que mais passar na cabeça de Urie. Em um momento você está ouvindo uma música sobre religião com palmas e coral gospel, pisca os olhos e está em outra extremamente animada e poderosa, daquelas que se ouve para te motivar a malhar e piscando de novo você está ouvindo um Brendon Sinatra na década de 20, preto e branco com charutos e whisky. Ao meu ver isso é bom, mostra uma versatilidade, sai um pouco da mesmice e torna a experiência de escutar as 11 faixas do álbum muito mais fluída. Good job, Beebo!

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Por André Araujo

Em julho de 2015, MIA lançou os “matahdatah scrolls”, dois vídeos gravados na Índia e na Costa do Marfim e dirigidos por ela mesma, dando início ao projeto que iria tornar-se seu próximo álbum (também chamado Matahdatah). A ideia era gravar simultaneamente as canções com vídeos em dez lugares distintos do mundo, dando continuidade as preocupações políticas e estéticas que já povoam a sua obra desde ARULAR, de 2005. Em dezembro ela lançou “BORDERS”, primeiro single do novo disco (ainda Matahdatah) e a mais importante obra audiovisual da nossa década até o momento. Não apenas uma canção que coloca na parede diversas dimensões da cultura contemporânea – desde o #maisamorporfavor às políticas identitárias, da lacração ao privilégio branco-europeu-corporativo – mas também um vídeo clipe que afirma de maneira didática o lugar que MIA sempre afirmou estar: ao lado dos migrantes, moldando em voz o murmúrio dos expatriados. MATAHDATAH prometia ser o disco síntese da “política do movimento” de MIA, se não fossem os meandros da própria indústria fonográfica, que fez com que o projeto naufragasse. De Matahdatah passamos a AIM, o disco que temos em mãos, lançado em setembro. envolvida em tretas desde sempre, MIA decidiu fazer um disco celebratório, de acordo com ela mesma, em vez da porrada habitual. Isso não quer dizer que a violência não esteja presente: a já citada borders, que abre o disco, é a música mais frontalmente HARDCORE (e melhor do disco), mas ainda tem as porradas político-experimentais que relembram os melhores momentos de Kala e Matangi. Desde o funk rasteirinha de go off à popzera descarada de freedum e finally, o tema segue sendo as opressões do cosmopolitismo capitalista. as canções irmãs foreign friend e visa – que inicialmente eram a mesma canção – servem como uma auto-reflexão de MIA sobre sua própria obra (sample de Galang, referências a todos os discos anteriores), ao mesmo tempo em que são as mais bem acabadas, tanto do ponto de vista lírico como musical. os momentos mais experimentais, como bird song, a.m.p. e ali r u ok?, ainda estão sendo dirigidos aqui. finalizar o disco com survivor talvez aponte para o que MIA já vem indicando, que AIM será o último disco de sua carreira (coisa que disse em quase todos os seus lançamentos). mas talvez seja apropriado como epitáfio uma canção que celebra a sobrevivência – tanto dela própria apesar das porradas constantes da indústria musical e corporações capitalistas quanto a de seus irmãos e irmãs refugiadas que incrivelmente seguem vivos – e em movimento. talvez não seja o maior disco da MIA, mas todo disco dela é sempre o melhor do ano, honoris causa.

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Confiram as partes 01 e 02!!

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