passei uma madrugada na rua no interior da Inglaterra

Esta não é uma história de aventura (mas é um pouco, porque foi uma situação arriscada), nem de superação (mas é um pouco, porque ter sobrevivido a ela é algo de se orgulhar). Esta é a uma história sobre a loucura e a falta de limites de alguns fãs. Mais especificamente, euzinha.

Porque eu não achei suficiente passar 12 horas em um ônibus pra Curitiba e, dele, ir direto pra fila aos 16 anos, nem invadir um hotel aos 20, resolvi embarcar em mais uma aventura aos 23 só para ver o The Used.

pelo menos valeu a pena
pelo menos valeu a pena

Eu poderia entrar em detalhes sobre tudo que aconteceu nos dias que antecederam o show, mas seria demais, então apenas quero lembrar o seguinte: eu tinha chegado às 7h30 da manhã em casa depois da pior noite da história. Por isso, quando eu entrei na Victoria Station, às 13h do dia do show, tinha dormido 3, no máximo 4 horas e estava exausta. Encontrei minha amiga, que estava quase tão igualmente cansada, e, enquanto almoçávamos com nossas promos do Mc (1,99 quatro diferentes Mc ofertas sem refri), tinhamos uma grande decisão para fazer: IR OU NÃO IR PARA SOUTHAMPTON?

Vamos voltar um pouquinho e explicar a situação. Estávamos em Londres e, na noite anteior, uma das nossas bandas favoritas da adolescência tinha iniciado uma turnê no Reino Unido. Obviamente, não deixaríamos de vê-los e não mediríamos esforços para isso (e não medimos mesmo). Por questões de logística e de tempo hábil, compramos dois ingressos para ir no show de Southampton, uma pequena cidade litorânea localizada a um pouco mais de uma hora de Londres. No momento da história, estávamos decidindo como faríamos para conseguir ver o show, sobreviver e voltar ao Brasil – e, amigos, a situação não estava fácil.

Porém, como já expliquei: fãs não têm nenhuma noção de limites. Então, nós fomos. De ônibus porque não tínhamos dinheiro para pagar o trem. A viagem foi super tranquila, pelo menos eu acho, já que aproveitei o quentinho e apaguei antes mesmo de sairmos de Londres, só acordando uns 15 minutos antes da chegada. A rodoviária (ou coach station, como diriam os ingleses) de Southampton podia ser pequena, mas foi um alívio para nós – inocentes – que ela tinha um banheiro e uma cafeteria (mais sobre isso adiante). E, claro, as pessoas eram muito simpáticas: por exemplo, esquecemos de olhar o mapa direito antes de ir e pedimos informações sobre como chegar no local do show; ninguém sabia muito bem, mas as atendentes meio que chutaram e acertaram. Antes de começarmos nosso curtíssimo caminho até lá, compramos as passagens de volta pro primeiro horário possível de volta para a Victoria Station: 4 da manhã. HEHEH.

Por sorte, a cidade era minúscula e o lugar do show perto, então – depois de passarmos por um Mc, um Starbucks, um Fridays e um Ikea enorme – encontramos um grupo de ex-emos sentados na frente de uma casa de shows toda pintada de preto, bebendo e enrolados em cobertores. Sentamos em cima da minha bandeira do Brasil e esperamos junto com a galera até os portões abrirem. Não demorou muuuito tempo, mas as horas passam mais devagar com o frio e foi um alívio quando finalmente entrei e me dirigi calmamente até a grade (sim, sim, éramos umas das primeiras da fila, visto que ninguém chega 45 dias antes pra assistir shows no exterior – principalmente esse, que era num lugar do tamanho do antigo Manara, talvez menor).

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As bandas de abertura talvez tenham sido as piores coisas que já tive que assistir na vida, e só piorou quando o vocalista da segunda – que não tomava banho desde o início do inverno provavelmente – resolveu descer na plateia e ficar gritando na cara das pessoas. Eu quis morrer. O show ~principal~, por outro lado, foi ótimo, incrível, maravilhoso, mesmo set list de sempre, chorei nas mesmas músicas, gritei até ficar sem voz, empurrei uma galera em volta de mim. Nada menos que o esperado, mas sempre algo bom de se fazer.

Brasileiras que somos, saímos correndo pra rua logo que acabou, ainda completamente despidas e carregando nossos 70 casacos na mão, pra ver se conseguíamos ~conhecer a banda. Eles saíram uns 5 minutos depois por uma porta lateral, mas, ao invés de ir pro ônibus que estava estacionado na frente, deram a volta e entraram no lugar de novo. Desconfiamos, mas o pessoal ficou esperando e, como não tinhamos mesmo nada para fazer, ficamos também. Não devia passar muito das 23h e já estava ficando meio frio demais (obviamente, já estavamos vestidas).

Sobraram umas 10 pessoas, no máximo, esperando e todos nós encarávamos a janelinha do segundo andar, de onde ouvíamos música e vozes. Quando o primeiro cara finalmente desceu, ninguém se mexeu e ele abanou e foi direto pro ônibus… voltando logo depois e se encostando na grade pra ficar conversando. Puxou assunto, ficou muito emocionado quando descobriu que éramos do Brasil, fez fofoca sobre o pessoal que ainda tava no camarim – coisas que eu já tinha visto ele fazer, mas nunca jamais sob nenhuma circunstância vi acontecer com uma banda gringa no Brasil. Acho que ficamos mais de uma hora conversando, ele comentando do frio e eu quase pedindo pra entrar no ônibus e tomar um chá antes deles irem embora. Depois, mais um desceu e teve um menino contando a história de superação, teve as gurias que tavam junto com a gente na grade pedindo pra ele colocar o nome na lista dos outros todos shows da turnê que elas iam, teve discursinho anti McDonald’s. FOI TUDO TÃO CIVILIZADO. Não sei vocês, mas 99% das minhas experiências conhecendo bandas aqui no Brasil envolvem gritaria, puxão de cabelo, empurrão, briga, segurança xingando. Eu nem vi seguranças pra ser bem sincera – e uma fã ficou muito chocada que eu era brasileira que me deixou tirar fotos antes dela. Fiquei bem impressionada?

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Mas enfim. Tudo muito legal, muito divertido, mas já era tarde, o pessoal tinha que ir embora. Devia ser 1h30 da manhã, um pouco mais – e tava muito frio. E agora, o que nós faríamos? Caminhamos de volta até a “rodoviária”, pois o lugar era um pouquinho afastado do centro da cidade e, inocentemente, achamos que o café ainda estaria aberto. Não estava. As pessoas esperando algum outro ônibus estavam todas encasacadas na rua com as suas malinhas. “Tá, tudo bem”, pensamos, porque ainda estávamos falantes e emocionadas e não tão afetadas pelo frio.

20 minutos depois,  já estávamos novamente afetadas pelo frio e perguntamos para um moço que estava por ali se havia algum lugar aberto 24 horas por ali. (Nota: nada fica aberto 24 horas na Inglaterra, principalmente no interior, onde a vida acaba às 18h). MAS TINHA!!! Nossa salvação!! E, ainda por cima, era um McDonald’s. Caminhamos até lá, pedimos duas xícaras de chá e uma porção de fritas e aproveitamos o wi-fi pra avisar que estávamos vivas (ainda)… até que fomos expulsas porque, depois de certa hora, eles só servem take out. Tentei dar uma choradinha pro segurança, mas meu charme brasileiro não convenceu e tivemos que voltar para o frio. Ainda ficamos ali na frente roubando um pouco da internet, mas resolvemos voltar para a rodoviária.

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Lá, havia um senhorzinho esperando um ônibus das 2h e pouco que iria para o Heathrow. Ele nos achou muito corajosas (e meio loucas), curtiu que éramos do Brasil (sempre), nos contou toda a história de vida dele (muito legal, se alguém quiser saber, me pergunta haha) e deu a dica de tentarmos pegar o mesmo ônibus que ele. O metrô ainda não estaria aberto, mas pelo menos ficaríamos dentro do aeroporto. Só  que a passagem era 4x o preço que tínhamos pago e a motorista não nos deixou embarcar sem.

O ônibus foi embora, nossos chás acabaram e sinceramente não queríamos falar uma com a outra muito mais. Ah sim, e estava MUITO FRIO. Ao lado da estação, tinha um estacionamento de vários andares com um tipo de um ~hall onde ficavam as máquinas para pagar, os elevadores e as escadas. Ele não era exatamente fechado, porque não tinha uma porta, mas era… protegido. Era nossa última esperança de escapar do frio também.

Não canso de dizer isso, mas estava muito frio e minha bota estava furada e o frio subia pelos pés, pernas, barriga, tudo. Depois de uns minutos de silêncio e de tentativa de conversa, colocamos música no celular e ficamos ouvindo alto pra ver se conseguíamos pensar em outra coisa. Comecei a andar e pular de um lado pro outro porque desconfiei que morreria se ficasse parada.

O tempo foi passando. Um senhor chegou com uma vassoura, varreu o lugar por uns 10 minutos e foi embora. Um guri chegou com uma mala, esperou um pouco no mesmo lugar que a gente, mas foi embora antes para pegar o ônibus das 3h para o Gatwick. Nenhuma pessoa passava na rua, nenhum barulho de carro, nada acontecia.

Até que: chegou 4h da manhã!!! A alegria que nós sentimos ao ver o ônibus dobrando a esquina e vindo na nossa direção era imensurável. E ele tava tão quentinho!!! Nem a criança vomitando no banco de trás incomodou muito. Desmaiamos e acordamos em Londres… onde ainda tivemos que andar da coach station pra train station, pegar o metrô, trocar de linha, atravessar o parque e – finalmente – chegar em casa. UFA.

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destruída

Engraçado como eu sempre tenho umas histórias meio desastrosas de más escolhas quando eu viajo, mas todo o drama acaba valendo a pena??? Enfim, acho que a moral de tudo isso é que fã é tudo meio retardado e não mede esforços (nem pensa nos contras) na hora de ir atrás dos seus ídolos e acaba passando por perrengues. Mas, sinceramente, I wouldn’t have it any other way.

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