meu ônibus me deixou no meio do deserto

Senta, que lá vem história.

Quando eu estava planejando minha viagem pra Califórnia, encasquetei que queria ir pro Arizona dar uma volta e conhecer o deserto. Estando sem carro, eu não ia poder fazer as coisas que normalmente levam o pessoal praqueles lados, tipo acampar, fazer umas trilhas, conhecer o Grand Canyon, morrer de desidratação etc. Sem nenhum planejamento e com mil desculpas sobre como eu queria conhecer meia dúzia de atrações que achei no TripAdvisor, marquei no meu calendário quatro dias em Phoenix, uma cidade do tamanho de Porto Alegre e com tantas atrações turísticas quanto a nossa maravilhosa capital.

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o arizona é um estado tão maravilhoso que é assim que tentam conquistar turistas

Era esse o pensamento que eu tinha quando acordei às cinco da manhã no dia da viagem. Eu não queria sair de San Diego, tinha conhecido só pessoas muito legais no meu hostel e até tinha recebido uma oferta de emprego. Mas vamos lá: me vesti e chamei o táxi que ia me levar até a GRANDIOSA estação de ônibus da cidade. A minha passagem estava marcada pras 6h40 e tinham muitas paradas na fronteira do México até chegar ao destino final.

Na fila pra embarcar, conheci um jovem que morava parte do tempo em Tijuana e parte do tempo em San Diego e estava indo pra Amarillo, Texas, ~resolver umas questões~. Ele desdenhou dos cadeados da minha mala, dizendo que era muito fácil de abrir e contou CAUSOS de coisas dele que a Greyhound perdeu/roubou. A viagem só melhorava.

Dormi as primeiras horas e, quando acordei, já era dia claro e a gente passava por alguma cidadezinha do interior da Califórnia. Essa era minha visão:

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costumo chamar esta imagem de: the dark before the dawn

Empolgada que o ônibus tinha wifi e eu recém tinha comprado um celular novo, fiquei brincando com filtros e pensando numa legenda pra postar a bela imagem acima no instagram. Absorta pela tecnologia, ignorei quando o motorista parou em um posto de gasolina, na incrível cidade de El Centro, e disse que a gente ia ficar lá um tempo e que podíamos aproveitar pra ir na loja de conveniência e comprar algumas coisas. Uns minutinhos depois me liguei do que ele tinha dito e resolvi sair e pegar um daqueles sanduíches de posto de gasolina que eu amo tanto.

Até aí tudo certo. Foi quando saí da lojinha que o pior aconteceu: O ÔNIBUS NÃO ESTAVA LÁ. Amigos, deixem eu explicar meu desespero: em volta do posto de gasolina, tudo que se enxergava era areia e cactus. Nenhuma casinha, nenhum carro passando. E eu ali sozinha com a minha bolsa. E A MINHA MALA NO ÔNIBUS. Nessa hora, eu tava até imaginando meu migo mexicano levando minha mala pra ajudar nos negócios dele em Amarillo.

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A sorte é que todo mundo que mora no deserto é muito legal e um senhorzinho que estava abastecendo seu caminhão, depois de dizer pra eu me acalmar e que não ia dar pra chegar na próxima estação a tempo, me passou o número da rodoviária de CALÉXICO. Nesse meio tempo, eu já tava pensando no que fazer durante as 4 horas que tinha que esperar pelo próximo ônibus, calculando quanto daria voltar de táxi pra San Diego e perguntando pra ele se dava pra correr até a próxima estação (tão inocente, tadinha, achando que meu preparo físico ia vencer o deserto).

Depois de ter que explicar pra moça da rodoviária duas vezes o que tinha acontecido porqUE EU TAVA GRITANDO COM UMA VOZINHA ESGANIÇADA E GESTICULANDO E PULANDO DE UM LADO PRO OUTRO, ela disse que eu tinha 40 minutos pra chegar até Caléxico e pegar o mesmo ônibus. Contei isso pro senhor e ele disse “são 7 milhas :(“, mas me mandou pra dentro da loja de conveniência pras moças do caixa ajudarem a chamar um táxi. Chamaram e disseram “são 7 milhas :)”; eu entrei em pânico porque SEI LÁ QUANTOS QUILÔMETROS SÃO SETE MILHAS, parem de me confundir com esse sistema de medidas horrendo de vocês. De qualquer forma, as moças me tranquilizaram, falaram que ia dar tudo certo e me mandaram para a rua porque o taxista não ia parar se não visse ninguém lá fora.

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Já tranquilizada, porém ainda tendo um leve ataque cardíaco, saí. Parado em frente à porta da lojinha, no telefone com a mãe e chorando, estava um menino que também tinha sido deixado pra trás pelo ônibus. Com toda educação que recebi, interrompi a conversa e expliquei pra ele que tudo estava resolvido e que um táxi estava vindo pra levar até Caléxico.

Desesperado que estava, ele perguntou se podia ir junto. Sorri de leve: é claro; primeiro, porque não sou má e, segundo, pela economia de obama$. Enquanto andávamos num carro caindo aos pedaços, sem taximetro (5 dólares por pessoa a corrida, 12.5  se saíssemos da cidade, dizia um adesivo colado no painel), tentando sintonizar rádios mexicanas e ouvindo nosso motorista falar em espanhol no celular, ele me contou que a mãe dele já estava oferecendo pra vir buscar ele de Tucson. Ri internamente pensando que só ia contatar minha mãe caso chegasse sã e salva em Phoenix.

Caso porque a cidade para onde estávamos indo, Caléxico, é um dos pontos de fronteira com o México, estando MEXICALI do outro lado da fronteira. Quando o táxi finalmente entrou na cidade e eu pude ver casas, pessoas, lojas, notei que seguiamos em uma linha reta que indicava que, dali mais alguns metros, passaríamos pela alfandêga. Meu coração voltou a disparar e eu já estava imaginando minha vida de bargirl em Tijuana, de onde nunca mais conseguiria sair. Por sorte ou pra provar que eu sou meio paranóica mesmo, o taxista dobrou na última rua antes da fronteira e nos deixou na rodoviária sãos e salvos. Corremos pra dentro do ônibus – que ainda estava lá! -, de onde não saímos até chegar em Phoenix.

Quando chegamos ao destino final, resolvi pegar um táxi até o hostel. Só pra não arriscar.

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Se vocês cansaram de ler esse texto, imaginem eu tendo que viver ele.

Hoje enxergo essa história como um exemplo de superação, um pequeno percauço que ocorreu pra que eu aproveitasse Phoenix com mais dedicação e amor à vida. Às vezes eu fico lembrando dessa história e me perguntando se meu companheiro de aventuras chegou a Tucson são e salvo. Espero que sim.

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